quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tudo o que eu queria te dizer


"Rique,

há dois anos que eu pareço um disco riscado, repetindo sempre a mesma coisa, que eu gosto de você mas não gosto do seu esnobismo, gosto de você mas não gosto do seu jeito escorregadio, gosto de você mas não gosto da sua vaidade. Estou sempre falando as mesmas palavras, e a gente vai se desencontrando, se desentendendo, seja no silêncio ou na repetição, nunca se afastando realmente e também nunca juntos, uma lenga lenga que pode até parecer amor - eu acreditava que fosse amor, por isso passei esses dois anos controlando meu tom de voz, acendendo uma vela pra deus e outra pro diabo, querendo você perto e longe ao mesmo tempo, então repetia: gosto disso em você mas não gosto daquilo, sempre com medo de que você se irritasse de vez e fosse embora, mas com medo também que você ficasse e me fizesse sofrer mais e mais. Dois anos, Ricardo, pedindo pra você me deixar em paz e nas entrelinhas gritando: me ame, seu idiota! E você surdo, mudo, cego e burro, desperdiçando o que eu tenho de mais sagrado, de mais inteiro e mais honesto, você sempre foi covarde que eu sei. Covarde. É por isso essa carta agora, Ricardo, para mudar de tom e arriscar, vou dizer o que penso, mas agora sem contemporizar, não mais contrabalançando minha decepção com as coisas que eu gosto em você, vou te dizer apenas o que eu não gosto, e azar se isso nos separar de vez, já não há remendo possível de qualquer maneira.

Te acho não só covarde, como mascarado, ainda que bem disfarçado por trás da sua lábia e de suas inócuas intenções. Se você tivesse 17 anos, ainda dava pra entender essa sua fixação em seduzir por seduzir, para colecionar trófeus. Todo mundo passa por uma fase de auto afirmação, mas aos 35, Ricardo, já era hora de você parar de blefar e investir em algo real, um sentimento que preencha a vida, você acha isso tão aprisionante? Pois prisioneiro você já é desta tua auto imagem que propaga para qualquer rabo de saia e que é falsa, incipiente, ridícula. O que adianta fazer as mulheres caírem aos teus pés por dois ou três meses, se depois elas descobrem o engodo e passam a desprezá-lo? Se você fosse orgulhoso mesmo, reduziria o número de vítimas e aumentaria o número de amigas. Porque se continuar sendo moleque vai morrer bem sozinho, ou com alguma namorada de ocasião, dessas que não vão lhe dar filhos nem justificar seus dias gastos. Você gasta seus dias com o supérfluo. E se acha tão profundo.

"Outra apaixonada", você deve estar pensando. Não negarei, sou mesmo apaixonada por você, mas menos, bem menos do que já fui, pois já consigo enxergar quem você é, e quem você pensa que é, duas figuras bem distintas, pois você pensa que é especial, e não passa de uma caricatura de homem, de um disfarce bem feito, um boneco de cera daqueles que a gente diz, nossa, mas é igualzinho a um ser humano, só que olhando de perto a gente vê que a expressão não muda, o olhar não brilha, a pose é sempre a mesma.
Pobre você, don juanito, que teve mulheres bacanas na mão, não só eu, mas eu inclusive. Você que podia ter dado um basta nas suas pretensões e ter vivido um caso de amor igualzinho aos de seus amigos, bem demorado e bem curtido, mas ora, imagina, Ricardo Saraiva Paz Vieira, ilustre ninguém, não podia ser mais um, tinha que se destacar, e se destacou como um pretenso bom partido, enquanto não passava de um produto mal acabado de gente. Você prometia. Tinha, e tem, potencial. Só não sabe o que fazer quando chega a hora de se entregar, prefere escapulir feito um rato.

Rique, magoei você o suficiente para me odiar, para me chamar de maluca, para tripudiar sobre meu destempero? Não me importo, você pode estar menosprezando minhas palavras agora, mas elas vão entrar uma por uma na sua cabecinha, vão morar aí por alguns dias até que você consiga mais duas ou três trouxas que o distraiam e o façam esquecer de quem você realmente é, um arremedo de homem, um protótipo, um rascunho, isso, você é o rascunho do homem perfeito, um layout, fica sempre devendo a finalização, o mulherio paga e não te recebe, você deve achar isso muito divertido. Mas, escuta, o único palhaço aqui é você, porque no final das contas é você que resta sempre sozinho, sem uma história verdadeiramente bonita pra contar.
Hoje não tem quero e não quero, gosto e não gosto, acabaram-se os meus cuidados com você, o morde e assopra, você não merece meu carinho, meus elogios, meu apoio, nunca soubre retribuir nem agradecer, considera-se merecedor de todos os afetos, quem é você, um príncipe escondido nesse quarto e sala em que vive, dirigindo seu Corsa como se fosse uma nave espacial, olhe bem pra você, nem bonito você é, nem bonito.

É o homem que eu amo, e isso lhe deveria servir. Mas, se não serve, se você dispensa esse tipo de sentimento barato, fazer o quê?

Para mim é sofrimento localizado, e demorado, admito, mas não vai durar tanto quanto a sua catástrofe emocional, que é pra sempre.

Cecília"

Tudo que eu queria te dizer - Martha Medeiros.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

away

Por meses e meses eu guardei em mim e em muitas das minhas coisas você, e estava tudo bem. Porém, quando você se foi, tudo se transformou em uma bagunça. Eu não queria te tirar de todos os momentos da minha vida, mesmo que você não quisesse mais estar lá. Então eu conservei qualquer vestígio que lembrasse você, qualquer um. Uma blusa, uma carta, uma declaração e até mesmo um colégio - sim, não tenha dúvidas quando eu disse tudo.

E o tempo foi passando, o mundo foi girando, as pessoas se transformando e eu parada em relação a isso. O que é isso, eu não sei, pois definitivamente não é "nós" nem "você" e muito menos "eu".

Primeiro entenda uma coisa, eu nunca quis isso. Eu não quis te guardar em tudo, eu não quis pensar em você a cada segundo do meu dia e durante a noite ter você em meus sonhos, mas foi assim.

Até aquele dia. O dia em que tudo mudou.

Normalmente, as mudanças ocorrem aos poucos, e quando eu digo mudanças, me refiro a atitudes e não sentimentos IN-felizmente. Mas comigo não foi desse modo. Eu me recordo de cada instante do dia em que desisti. Me vesti de algo que eu não sou e provavelmente nunca serei, absorvi sua energia completamente e então fui embora. Te dei um adeus e uma carta. O que eu não sabia, é que eu deveria ter te dado outras coisas. Minha tristeza, minha solidão, minhas lágrimas - não importa mais, elas já foram embora durante as longas madrugadas em que te esperei. De qualquer jeito, depois disso, tudo foi uma questão de tempo, de doces e de amigos até que eu soubesse que teria que fazer mais do que apenas isso pra me livrar de ti.

Isso foi lento. Te disse adeus de tantas formas e você não notou nenhuma.
Tive tanto medo de apagar aquela tinta que escreveu. "Estive aqui".
Sabe, eu não queria realmente ter que esquecer que você esteve aqui. Antes. Hoje eu finalmente percebi que sua presença tem causado mais sofrimento do que qualquer outra coisa. Não, obrigado, eu passo.

Assim como você esqueceu várias conversas e vários sentimentos, hoje eu esqueço você. Os vestígios que tenho de ti estão indo. Eu joguei fora. Eu te joguei fora. Realmente o amor não é o suficiente. Porque eu ainda te amo, mas jamais aceitaria qualquer coisa que viesse da sua pessoa, não é você quem vai me fazer feliz, não é!

Adeus, estou indo recomeçar.
Estou indo ser feliz.